quarta-feira, 6 de junho de 2012

O artista e a quimera

"O artista vive em dois mundos.
As pessoas ao seu redor conhecem apenas um deles"

Silvia Alvares


desenho-à-grafite-Silvia-Reis-2012
Vivien Leigh - desenho em grafite

 
Muito se ouve falar na importância da arte para o desenvolvimento da criança e da compreensão do mundo pelos adultos. Muito se ouve falar da inspiração do artista e da relevância desta para o sucesso de uma obra. Muito se ouve falar da difinição da arte, muita vezes traduzida num discurso poético e abstrato.
Particularmente, penso que a arte não é mais do que um trabalho como os outros. Assim como existem os funcionários que trabalham no anonimato, exercendo várias funções para as quais muitas vezes não estão adaptados, também existem os artistas que precisam desenhar ou pintar algo que não desejam porque a necessidade obriga e eu não diria que esse é um momento de grande inspiração. A idéia de que o artista é um gênio, um fenômeno, ou algo que está além da compreensão dos simples mortais tornou-se uma lenda.
O artista seria algo especial se não pagasse impostos por ser artista, como algumas autoridades religiosas, por exemplo, que se colocam acima dos demais simplesmente por professarem sua crença, sem nada produzirem e, no entanto, são tratados como seres superiores na hierarquia social.
Esse conceito simplório do artista pode parecer querer inspirar a banalização da arte para os politicamente corretos e também para os que dizem se preocupar com a educação e pretendem vincular ambos os assuntos num contexto pedagógico, contudo, para os que pensam que a verdadeira arte (se é que isso existe...) só se encontra nos museus, a ideia pode representar uma falta de sensibilidade, de discernimento ou de bom gosto ao que ele concebe como belo, superior e transcendental.
A desmitificação do artista e a constatação de que ele é um trabalhador deve suscitar em nossa mente a questão: a quem interessa supervalorizar o trabalho de artistas que, independentemente de seu talento, são cercado de mistérios e quimeras, enquanto outros, às vezes até mais talentosos, demoram à sombra do glamouroso mundo das artes?